A Casa Mal Assombrada de Amityville

Gostaria de começar esse texto com eloquência de quem costuma digitar artigos envolvendo a experiência pessoal da leitura de um livro, até porque esse é o primeiro depois de tantos anos afastada dessas colunas daqui, mas acho que forçar um padrão de caracteres por parágrafo ou palavra impactante para alimentar o algoritimo vai fazer dessa experiência algo enrijecido e frio.

Meu último desejo é esfriar as coisas, principalmente quando falaremos de espíritos e demônios, de moradores presos nas paredes físicas de uma residência e do clichê mais delicioso e frequente de todos: a casa malassombrada.

Li uma vez em Dança Macabra, Stephen Kinda, que o subgênero do terror mais clássico e, ao mesmo tempo, apaixonante, é esse de uma família serelepe e contente a se mudar para um lar novo no qual a promessa de uma vida estonteante, nova, recheada de ares frecos e uma bonança nunca vista é tão sedutora e real, que nada naquele mundo – ou no outro – afastará os novos residentes do seu novo teto.

O tema “casa nova”, que normalmente acompanha mudanças, sempre foi um místico desejo para mim. Parte por ter vivido parcela significativa da minha vida em um único lugar, parte por ter me mudado apenas uma vez, quando me casei. A ideia de viver um pedacinho em cada canto, da atmosfera de mudar os ares, me encanta tanto quanto me assusta; afinal, estamos falando de terror e não existe nada mais envolventemente apavorante.

Diga-se de passagem, sou formada e pós-graduada em uma penca de experiências com filmes e literatura de terror, no estágio leve! E na maioria desses enredos a casa mal assombrada é o grande foco, seja um chalé de férias ou uma casa nova de verdade, ou só um final de semana na casa dos tios, dos avós, uma casa de
veraneio, tanto faz. Enfim, creio que a maioria de nós pense a mesma coisa: só vá embora! E tudo estará resolvido. Parece óbvio demais, eu mesma gritei, inutilmente, para as personagens simplesmente se mandarem dali e engolir o orgulho, mas a verdade por trás da persistência só compreendi quando sai do ninho da minha mãe e comecei a cuidar do meu lar.

No Brasil, o sonho da casa própria é quase unânime, principalmente para quem tem uma renda média-baixa, quando pouco sobra para comer, imagina juntar para dar entrada em um imóvel? E o tempo urge! O m² valoriza a cada trimestre, enquanto o salário congela junto com o frango que você comprou e esqueceu
no fundo do freezer. A conquista da casa própria parece impossível para o brasileiro não-herdeiro, confessemos.

Parece-me, aqui deixo minha leiguice falar, que lá fora, e estamos falando de uma quantidade considerável de produções Norte-Americanas, focando aí nos EUA, essa ideia de ter o próprio imóvel é um pouco mais possível ou não importa tanto; novamente, falando de famílias hetero normativa brancas, daí temos outro padrão que atrapalha um pouco a estatística real.

Justamente por alcançar o sonho o qual busco tão compulsivamente, é que me deslumbro com essa estonteante conquista de finalmente ter-se o próprio lar, de papel passado e tudo.

Daí já temos uma explicação plausível para o meu completo deleite no assunto, mas quando a magia do “cantinho só seu” se torna justamente o seu tormento? Queimamos a residência com os móveis e tudo? Largamos pra lá e esquecemos que um dia fomos parar ali? Ou só esqueço que gastei rios de dinheiro em uma
entrada, acrescida das parcelas mensais, porque minha sanidade mental importa mais? Óbvio que persiste até o último suspiro! – aqui deixo claro que eu
mesma tinha saído correndo, mas nunca desembolsei 80 mil dólares para comprar qualquer coisa e acho que não jogaria tudo isso ao vento.

Decisões questionáveis à parte, o fato é que Amityville é uma história de casa mal assombra incrivelmente clássica, que fala sobre a vida de uma família feliz e contente recém-conquistando o sonho americano, adquirido com uma promoção irrecusável, um negócio de primeira!

Só que, existe um detalhe: baseada em fatos reais (é verdadeira essa frase).

Sim, Amityville teve uma narração bem física e inteiramente real, de uma tragédia real e que realmente as energias ao redor da moradia não são lá das melhores.

Ter uma trama em cuja existência de demônios é praticamente comprovada salta o leitor curioso nato para o leitor realmente fascinado pelo sombrio e não sou uma leitora que se contentou com o filme Terror em Amitvylli – muito bom, diga-se de passagem –, eu precisei do livro e o li consciente dos medos que me causaria; apesar de ter tido as mesmas más noites de sono de sempre.

Os Lutz, protagonistas dessa trama, são os guerreiros de espada não a enfrentar o mar azarento que os assolou desde o primeiro dia dentro da casa em Amityville. A narração fatídica, dividida em momentos cruciais dos exatos 28 dias de estadia, foi um dos pontos crucialmente divertidos da leitura desse exemplar.

Esperei descrições horrendas, cenas grotescas e até aquele pavor de ler o livro somente de dia e na companhia de um estádio de futebol lotado, mas até que apreciei as linhas na humilde presença de meus gatos e, claro, eu – se é que ando só realmente.

Trata-se de uma obra que traz o lúdico para o combo medo, espírito e demônio. Impressionei-me com essa condução da trama, que me agarrou desde o primeiro capítulo, com uma clara explicitação de que os Lutz sabiam plenamente que aquele solo tinha sido palco de tragédias anteriores e selada um passado ainda mais perversos.

Em uma mudança de visão dos Lutz para o padre local, Frank Mancuso, as entrelinhas do poder que existia na residência são expandidas para um nível duplamente catastrófico: o mal não é só noturno e nem espera dar a badalada de 3 da madrugada, tão pouco se contém na moradia. Ele vai a quem deseja afetar, seja qual for as paredes que estejam ao seu redor ou a hora que o relógio marcar.

Claro, isso dá medo e bastante. Alías, quem não tem uma história de casa mal assombrada na família? A minha foi a casa onde meu pai cresceu e eu morei o meu primeiro ano de vida. Diversos enredos mirabolantes saiam à mesa quando o jantar era recolhido e a sobremesa esfriava nos pratos. Seja através de meus tios, de meu pai, de meus avós ou os primos que tiveram o azar de presenciar tais desavenças e, unidos em data comemorativa, normalmente católica, traziam a tona os causos inexplicáveis que aconteceram na “Casa do Farol”, como mencionam até hoje.

Uma família grande compram a casa nova dos sonhos, diante de um lago magnífico, em uma cidade com ar de campo na qual a vida é em ritmo de carpem dien. O sonho perfeito, diga-se de passagem. Até que percebem não serem os únicos moradores da residência?

E é isso que torna a ficção – mesmo baseada em fatos reais – tão puramente real, aproximando-se de nossas vidas quase como se escritas para nós em particular. Esse poder de me fazer lembrar tão propriamente dos momentos de reunião a mesa no natal, tornou a experiência com o livro Amityville tão especial.

Creio que cada obra tem seu jeitinho de marcar o leitor – e é isso que me faz tão apaixonada por literatura – e mesmo quando os holofotes estão no horror pelo medo, a gente tem um espaço profundo para olhar para uma espécie de luz no meio das sombras.

Em escala de leitor de terror, considero Amityville um clássico indispensável e um bom livro para quem começar a se aventurar nesse mundo da casa mal assombrada.

Antes que esse artigo torne-se uma tese de doutorado, quero deixar mais uma mensagem, outra reflexão que tive da trama e, melhor, depois de um tempo marinando o enredo na cabeça.

Apegamos-nos ao lar com o receio de perdê-lo, claro. O cheiro, o aspecto da textura da parede, a disposição dos objetos no armário, daquela mancha de mofo do inferno que fica exatamente onde você se lembra, da chave que tranca a porta da frente, do jarrinho de planta do lado da entrada.

Os detalhes aconchegantes que nós colocamos na casa que habitamos é o maior reflexo que o verdadeiro lar não tem nada de material ou de papel assinado no cartório. Ele é pura e inteiramente nós.

Agora, vou queimar meu incenso de 2,99, porque certas coisas, só de pensar, causam arrepios. Aconselho você a queimar um também.

Beijos de Fogo.

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