Resenha Do livro: O Iluminado, A Alma do Hotel Overlook

Resenha Do livro O Iluminado, A Alma do Hotel Overlook

Podemos aceitar quase qualquer coisa por dinheiro, principalmente quando a necessidade fala mais alto e não existe alternativa capaz de lhe conferir dignidade suficiente para garantir a comida da próxima refeição.

O desespero, principalmente aquele derivado do ego, do orgulho ferido, molda-nos ao ponto de agir para, unicamente, provar que estamos em posse da razão; ela é minha, não consegue ver? Tenho-na como a um prêmio e devo exibi-lo o quanto for possível.

Aceitamos, inclusive, a vigia. A estadia em um lugar que exala dor, que exala sofrimento, desde o seu administrador até os ratos do porão. Almas vivas ou mortas. Gravadas nas paredes do Overlook e, depois de por ele passar, em quem assumiu o cargo de zelador no inverno sofrido nas montanhas do Colorado.

Ficha Técnica do Livro

Stephen King é a mente por trás do livro O Iluminado, uma história de horror que teve seu entendo baseado na vivência do autor ao se hospedar no hotel Stanley – não quero imaginar como devem ter sido essas noites.

Foi o terceiro livro publicado do mestre King, datado de 1977. O sucesso da obra foi tão grande que se tornou seu primeiro best-seller de capa dura, firmando-o na carreira de escritor de terror (título que ele, pessoalmente, detesta).

A história de Jack Torrance conta com algumas contribuições audiovisuais, dentre elas um filme dirigido por Stanley Kubrick, em 1980, uma minissérie de televisão lançada em 1997 e duas continuações da trama – inspiravas na historia do livro Doutor Sono – lançadas em 2013, e sua adaptação em 2019.

Todos conhecem a cena icônico do rosto de Jack enfiado na porta, rindo diabolicamente, enquanto atormenta a pobre Wendy, sua esposa. Os motivos que fazem Jack se tornar essa imagem macabra são sóbrios o bastante para causar tremeliques.

Sonhos se Tornam Pesadelos

Para não ser muito prolixa e acabar só fazendo um resumo da historia e nenhum outro comentário relevante, vou pincelar o inicio de tudo.

Jack Torrance é um aspirante a escritor, intelectual e envolvido com a elaboração de uma peça, acaba sendo demitido de seu antigo emprego e necessitando de algo que lhe desse renda para sustentar sua mulher e filho, Wendy e Danny Torrance.

A oportunidade surge no Overlook, uma vaga para zelador temporário, que tinha como função manter o hotel aquecido, limpo e bem-cuidado, para a chegada da próxima temporada. Bom salário, moradia no próprio hotel, comida a vontade e um veiculo maravilhoso para visitar a cidade, comprar presentes para o natal e assistir a neve cair pela lindo vidraria do salão principal.

De bônus, Jack ganhava a paz de poder escrever no silencio sereno afastado da cidade, motivo principal que o levou a aceitar aquela estadia “promocional”. Um sossego no bolso e na mente, desses que o mantinham longe da tentação de beber uma dose; passava pelo primeiro período longo sóbrio e queria manter-se assim.

Tudo pelo sonho de conseguir terminar sua peça e voltar para a vida literária com as honrarias que merece, totalmente desculpado do que aconteceu no seu passado como professor e pronto para sorrir e assinar autógrafos. Era o sonho perfeito, a vida perfeita, tinha tudo para dar certo, mas não se pode controlar o destino, ou as almas que já foram.

Um Olhar, Um Dom

Seria simples se só existisse a visão de Jack e sua conturbada mente viciada, lutando para entender que o álcool não é um alivio, muito menos um refúgio. Esse livro, como Stephen King gosta de fazer em suas narrativas longas, alterna visões das personagens em um multiplot. Wendy, a esposa e jovem mãe, presa no limbo traumático de seu passado, e o pequeno Danny, uma criança que tem o dom da visão.

Uma família fragmentada pelas palavras não ditas, pelo medo inominável da separação, pela mágoa permanente e pela preocupação de desconhecer o dia seguinte, se ele seria bom, se possibilitaria a brilhantina risonha de outrora.

Era uma época difícil, meados dos anos 60-70, marcada pela carência e o sonho americano, por todos os disparates graves da desigualdade de gênero. Jack precisava prover, porque Wendy virou mãe. Nesse caminho cheio de migalhas, Danny carrega a dúbia sensação da inocência infantil e da maturidade precoce a qual não queria encarar, mas precisava, pois seus dons o permitia ouvir o que está na cabeça de seus pais.

A dor de Danny, evidenciada em angústia, foi algo que me prendeu muito. Ele é meu personagem favorito nessa história. Apesar da pouca idade, a complexidade barrada é estupenda. Seus capítulos são os mais gostosos de ler, arremetem às lembranças de quando estamos rompendo essa casca tão perfeita que é a ingenuidade. Lê-lo emociona, obriga-nos a mergulhar nas tenras sensações do despertar para a realidade, quase como uma hipnose ao seu eu criança.

Através do olhar desse pequeno ser abençoado com um dom telepata, enxergamos uma porção de acontecimentos macabros, desses que causam arrepios. Confesso que fiquei desejando uma história que seguisse apenas a vida de Danny, seus atos bucólico, se partilhava dessa sensação única que tem com seus pais, com seus amigos de escola.

A Qualquer Custo

O livro de Jack Torrance é uma espécie de reflexo das experiências do escritor Stephen King e como tal expressa as dores de ser um autor iniciante. Com frequência ele esboça personagens que veem nas palavras o sonho da vida, cientes ou não do que é preciso abdicar e enfrentar para elas serem convertidas em cédulas monetárias suficientes para se viver dignamente.

Jack é um escroto, um homem típico da década de 70, machista e patriarcal até o osso, não cativa o leitor por seus pontos positivos, mas pela capacidade única do autor criar alguém como ele e ainda te prender de jeito. Essa variedade de pessoas profundas criadas por SK é surreal, sempre me inspiro em como ele consegue excluir a regrinha do “cative seus leitores com personagens inspiradores”, expondo escórias variadas, faces variadas, que te deixam tão envolvida quanto as personalidades admiráveis.

Mas o que me chamou atenção em Jack foi a sua guerra interior com a escrita. Ele vai e volta em uma peça que parece não ter fim. Briga com as personagens, faz e refaz, entrega para sua esposa ler, edita e ela lê de novo, mas nunca está bom. Porque a alma dele não esta detalha naqueles papéis, porque sua mente vaga em outros problemas, outras preocupações. Tirando seu sono e sua concentração, o sabotando, o fazendo acreditar que a hora perfeita ainda não chegou.

Enquanto isso, o tempo passa e os escritos esfriam, se tornam distantes do que ele almejou, então para e olha para aquele monte de palavras como quem encara o fundo do poço e busca por um reflexo, algo forte o bastante para ele se apegar e se reconhecer. Enxerguei-me tanto nesse abismo perigoso no qual Jack estava.

Esse vazio vai sendo preenchido por algo ruim, uma força sobrenatural, perversa, antiga, que faz dele sua morada, reivindicando-o como seu. É assim que tudo começa e que vai terminar.

Digo-lhes, o terror é uma forma sinistra de nos obrigar a olhar para o nosso pior lado. Todos nós alimentamos monstros, sejam eles imensos ou não.

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Beijos de Fogo.

Trailer Filme O Iluminado

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