Resenha do Livro A Paciente Silenciosa: Mulheres Sempre São “Loucas”?

Resenha do Livro A Paciente Silenciosa: Mulheres Sempre São “Loucas”

Essa é uma das poucas vezes em que venho escrever a resenha de um livro assim que li a última página e o fechei. Normalmente, prefiro remoer o enredo por alguns dias, dar voz a procrastinação, me jogar em um beco sem saída de prazos apertados e, de última hora, apressadamente, espremer a cabeça para me lembrar de todas as ideias e sensações que tive ao longo da leitura.

Por um lado, ajuda a fazer o exercício de memória, de reviver as coisas com o ângulo da emoção esfriada, analisar os sentimentos que tive com mais razão. É quase um trabalho de autoanálise, como se eu fosse a minha própria terapeuta (nossa, falei muito sobre isso nesse texto).

Só que Alicia me pego de jeito, ou melhor, Alex Michaelides o fez.

“Se Os Lábios Tem Olhos de Ver e Ouvidos de Ouvir vai se Convencer de que Nenhum Mortal é Capaz de Guardar Segredo”

O silêncio…

O poder do silêncio.

Seria possível decidir se calar? Abdicar da voz por escolha, esquecendo totalmente os sons vocais, os murmúrios, o falar sozinho, a voz imaginativa quando lemos algum personagem. Eu costumo falar sozinha, gosto de fazer isso para não me sentir só. Sou geminiana, falo a beça, e toda essa crença sobre signos – uma espécie de arquétipo, os quais odeio, diga-se de passagem – predizerem quem somos.

Então, já viu que dei voltas, não é? Vai ver isso de personalidade astrológica exista. Mas, voltando ao ponto, você seria capaz de se fazer silêncio para sempre?

Para mim é impensável.

Considerando que falar, se expressar, vai muito além das palavras e do simples fato de dizê-las – é preciso ser ouvido e considerado –, a ideia de ser silenciada perpassa meu coração como uma agulha invisível, ferindo-me, sufocando-me, levando ao desespero.

Alicia Berenson se calou depois de assassinar o marido a sangue frio, com cinco bonitos tiros. Achada de pé, ao lado do cadáver, muda e alheia a qualquer reação. Calou-se muito além do fonema, as expressões também fizeram parte do seu acordo de jejum.

Theo Faber, como um bom terapeuta, se interessa pelo enigma do silêncio irredutível dessa paciente famosa (artista incrível e crime aclamado pela mídia) e resolve tentar uma vaga no hospital no qual ela estava internada. Um desafio irrecusável, um coração cheio de vontade de ajudar e uma história mal contada.

Acho que estou saindo do meu eu reflexiva e entrando em um estado de marchand dessa história, porque não consigo evitar o frenesi de tentar te convencer a ler, para que possa perpassar no seu coração essa emoção avassaladora de saber que a verdade é algo relativo e que a sanidade mental pode ser uma arma e uma armadilha.

A grande pergunta é: “Por que Alicia se calou? Do que ela tem medo de falar?”.

Isso me fez pensar quantas verdades, segredos, escondemos no fundo das camadas da nossa mente, a maioria deles temos plena consciência, são os lados obscuros, sombrios, perversos, que todos temos, mas que preferimos agir como se não existissem – ou tentamos transformá-los em drama trágico, como faço na escrita dos meus livros.

Essas verdades secretas, das quais nos recusamos a tratar, falam mais sobre nós e sobre as pessoas que se relacionaram conosco do que as conversas admitidas abertamente.

Mergulhei em um oceano cheio de nuances dos meus “eu’s” não tom bonzinhos para encontrar uma luz bruxuleante, nem clara e nem escura, de uma intimidade que tinha me fugido; escapado quando me perdi em um limbo de desejo de me afirmar à terceiros e provar coisas das quais não me importo ou almejo.

Esse livro agiu como cura quando pensei que seria só um entretenimento. Se havia dúvidas algum dia sobre a razão de ser escritora, Alex Michaelides tratou de varrê-las e eu as vi serem carregadas pelo vento além da porta do meu coração, se dissipando no ar, feito fumaça, acenando sorridente um adeus. Espero que derradeiro.

“Emoções Não Expressas Jamais Morrem. Elas são Enterradas Vivas e Voltarão mais tarde, mais Feias.”

Quando estava no quarto ou quinto período da faculdade – sou formada em Biologia –, tive uma matéria chamada biologia evolutiva, que basicamente falava das principais leis da evolução, mas em um sentido bem mais complexo, considerando as questões sociais e filosóficas que envolvem o conceito.

O professor que a lecionava, Luís Antônio, jamais vou esquecê-lo nessa vida, um dia entrou no assunto sobre as questões de doença. O que significava doença? Por que é considerado fora do normal? O que é normal?

Nesse papo chegamos a psicopatologias e me veio a pergunta: “Professor, então, se a realidade e o normal são criações da sociedade, o reflexo do comum, podemos dizer que, por exemplo, a esquizofrenia, se fosse considerada o comum, quem não a tem seria o doente?”. Ele muito sabiamente disse: “sim. A conceito de doença é algo que parte de uma realidade e não a realidade completa”. Isso ficou na minha cabeça de um jeito que nunca mais esqueci, nunca mais criei do mesmo jeito.

A Paciente Silenciosa é um livro investigativo, por um lado e do ponto de vista do terapeuta – Theo – e da paciente – Alicia –, mas não é apenas a trama de respostas as perguntas que conta. Ele é um livro sobre a “loucura” e sobre como é comum e fácil incriminar mulheres com acusações de insanidade, porque ficou tão comum apontá-las para o feminino que se tornou banal e até, álibi masculino para se safar da culpa.

Alicia é uma mulher com traumas profundos, a maioria nasceu na infância, e como todo ser humano sem terapia, lida com isso da forma que dá; geralmente aumentando a teia de dores traumáticas.

Acusada de um crime hediondo, Alicia tem todos os dedos apontados como: “ela não bate bem da cabeça”, “tem um parafuso solto”, “ela não gira bem”. Quem é que tem todas as questões mentais em ordem? Só divindades e pessoas figuradas, pois somos múltiplos demais, diversos demais e ignorantes demais para lidarmos com todas os aspectos necessários para atingir uma plena sanidade mental; ou saber administrá-la, no mínimo.

Lembro de quando criança, sentada aos pés de tias, primas mais velhas, avó, amigas da minha mãe, de ouvir o levante entre elas sobre a mulher louca, o estereótipo, e de como isso não cabia mais. Eu tinha, sei lá, oito anos, e lembro nitidamente da minha mãe conversando, diversas vezes, sobre não admitir que uma mulher fosse chamada assim (acho que no fundo, a guerreira que idealizo é minha mãe, ao mesmo tempo que também atribuo a ela a ditadora. Acho que seu espírito tão poderoso me dá certo receio e inconscientemente acredito que é uma repressão, porque quero ser como ela e eu jamais serei, porque eu preciso ser eu).

Devaneios a parte…

A mulher louca.

Isso soa familiar para você? Quantas vezes ouviu um homem se referir a mulher com quem teve uma relação e ela acabou, ou esta definhando, que ela é louca, não bate bem da cabeça e a danação de inferiorização?

Escuto demais e talvez escutarei por muito tempo. A loucura, nada mais é, que uma palavra para caracterizar algo que os incapazes de sair de suas realidades não conseguem entender.

É a salvação, é o romântico, é sinônimo de gênio e a resposta para o que não se sabe dizer, ou compreender. Boa e má. Mas, acima de tudo, é o resumo diminuto para mulheres corajosas demais, valentes demais e, claro, inteligentes demais para os homens acompanharem.

Fica essa questão: Alicia é louca? Eu posso dizer que sim e foi isso que me fez apaixonar tanto por ela.

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” – Friedrich Nietzsche.

Beijos de Fogo.

Como Adquirir um Exemplar?

O livro a Paciente Silenciosa está disponível através desse link. Tanto a versão digital quando a física podem ser adquiridas.

Essa é uma obra publicada pela editora Record, considerado um livro best-seller pelo New York Times.

As resenha do livro sai por aqui as quintas-feiras, mas você pode acompanhar em tempo real meus comentários sobre as leituras na página do Skoob.

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