Não Olhe Para Cima: Que Tipo de Ser Humano Estamos nos Tornando?

Não Olhe Para Cima: Que Tipo de Ser Humano Estamos nos Tornando

Era uma tarde de sábado, primeiro dia do ano de 2022 e me reuni com minha mãe e minha esposa para assistir a novidade da Netflix.

Um filme de ficção recheado de atores incríveis e uma premissa bastante utilizada nos últimos dez anos: o fim do mundo.

Escolha interessante para iniciar um novo ano, principalmente o segundo pós-pandemia, quando pulei sete ondas desejando esperança e recomeços, prometendo energias positivas e uma tentativa de manter a fé – em mim, nos meus sonhos e em dias mais prósperos.

Mas o engraçado é que esse tipo de filme costuma me inspirar. “Ah! Vamos viver como se fosse o último dia!”, “foquemos no aqui e agora, esqueçamos o futuro”. Esses não são bem os motivos pelo qual meu cérebro pulsa animado, criando suposições mirabolantes que geram as histórias que coloco no mundo.

Esse tipo de filme costuma me lembrar um detalhe curioso e bastante pertinente – um fato, para ser mais exata – sobre o ser humano, e a própria terra: somos insignificantes perante a massa cósmica.

Perante a Grandeza do Universo Somos Átomos Imperceptíveis

Gostamos de nos classificar como centro desde as mais tenras formações sociais descritas na história.

O ser pensante, racional, intelectual, complexo, qualquer outro termo similar foi a razão por trás do egoísmo, a explicação da superioridade. Apenas pelo simples fato de conseguirmos formar uma teia cognitiva, simbolizada através desses desenhos que chamamos de palavras. E estes assumem uma gama incomensurável de significados a depender de quem o lê.

Daí fica a pergunta: será mesmo que somos os únicos capazes de transmitir essa complexidade comunicativa.

Mas o filme não é bem sobre superioridade humana, apesar de criticar o egoísmo. Não Olhe Para Cima é sobre a ignorância dos governos perante a ciência e sobre a ignorância humana perante a qualquer aspecto da vida além das telas.

“E Fora do Stories Você Está Como?”

A pandemia encurtou as previsões do estilo de vida que teríamos com a adaptação do mundo digital. Em 2019 falávamos do poder das mídias sociais, da cultura do ódio e de como a alienação digital é perigosa para a sociedade como um todo.

Passaria esse artigo inteiro citando consequências negativas da vida nas redes, desde a influência nas doenças psicoemocionais – como a depressão – até promover a eleição política de países, movimentos radicais e por aí vai.

Cabeças abaixadas, telas ligadas, emoticons preferíveis à palavras, áudios no lugar de ligações e estas no lugar de encontros pessoais. Uma vida facilitada pela tecnologia, o tempo encurtado, otimizado, potencializado, distancias rompidas pelo Wi-Fi.

Não era novidade que um dia a tela seria a preferência, que o online dominaria nossa rotina como um todo. Em 2019 nos preocupávamos com as adversidades e consequências da vida digital, então chegou 2020 e a pandemia nos obrigou a sermos digitais.

Um ano longe da vida humana que conhecíamos, perdendo pessoas, assistindo o mundo conhecido desmoronar em um colapso em tríade: saúde, economia e política. Um ano cuja vida se resumiu a um sinal de internet, postagem, produção de conteúdo, likes, ranking na trend do Google e quantos seguidores se tem no Instagram.

Tínhamos esperança de voltarmos à liberdade de outrora, mas quando afrouxamos medidas e a vida fora da tela se tornou possível outra vez, a necessidade do post, do vídeo engraçado de 15 segundos e da manutenção do engajamento não saiu de nós.

Só o Ranking Importa

Não Olhe Para Cima: Que Tipo de Ser Humano Estamos nos Tornando
Não Olhe Para Cima: Que Tipo de Ser Humano Estamos nos Tornando (Imagem Retirada do Site Oficial Netflix)

Não Olhe Para Cima é um filme que fala de um cometa que vai atingir a Terra em pouco mais de seis meses. Uma jovem cientista, empolgada com sua pesquisa, descobre uma rocha espacial que viaja rumo ao nosso planeta, pronta para destruí-lo.

A descoberta urgente alerta os diretores espaciais da NASA, que levam a jovem Kate Dibiasky e seu orientador, Dr. Randall Mindy, às portas da presidente dos Estado Unidos, que os faz esperar por horas aflitas, esvaídas em ansiedade e preocupação.

Reunir-se com os líderes para anunciar uma catástrofe arremete ao heroismo de salvação tão típico nas ficções cientificas, mas a presidente não está muito interessada, não quando sua campanha de reeleição ecoa pelo país associada aos escândalos de um empresário e ator com possíveis fotos de nudes. Porque a politicagem vai sobreviver ao cometa, não é mesmo? (Contém sarcasmo).

Medidas de salvação do planeta não são importantes e só se tornam quando existe vantagem política para a reeleição, quando o Dr. Randall vai à mídia e se torna querido por seu carisma. Coisa que não aconteceu com Kate, que viu naquela farofa de futilidade o absurdo e se expressou calorosa a respeito disso – sua revolta foi calada por um meme.

Não importa salvar qualquer aspecto do nosso mundo se isso não tiver interesse político ou econômico, se não houver dinheiro ou fama rolando.

Porque apenas os Rankings importam, o quanto seu nome está viral nas mídias e qual o seu poder influenciador nesse sentido.

Agonizando em Silêncio, Morremos Gargalhando Atrás do Celular

De todos os aspectos que esse filme critica, o que mais me chamou atenção foi a alfinetada com gosto de golpe de espada, do quanto ignoramos os gritos de socorro da Terra, cegados pelos desejos banais de tirar nosso carro, ganhar mais, ter mais seguidores, etc, etc, etc.

Existe um meteoro que vai destruir tudo nesse filme, todos vão morrer, mas ninguém se importa o bastante, mesmo quando a cauda do cometa surge em um pontinho brilhante no céu, dividindo as pessoas em crentes e os descrentes da causa, que falam bobagens para se manter na zona de conforto mental; alienados.

Tal qual, vivemos o retrocesso em diversos aspectos, principalmente o político, que duvida da ciência e faz a população duvidar também. Saímos da crença nas tecnologias para uma melhor qualidade de vida, para acreditar que uma vacina de imunização contém um chip de rastreamento – ao mesmo tempo que nunca nos importamos com a localização ligada do Google, vigiando nossos passos, ouvindo-nos e nos induzindo a fazer o que deseja.

Gargalhamos atrás das telas, animados com a história editada pelas mídias, enquanto ignoramos os enredos reais ao nosso redor. Ignoramos o fato de que fizemos alterações tão profundas na terra que não existe salvação, mudamos o clima e o que vivemos em catástrofes é só o começo.

Atribuímos a Deus e religiões diversas uma especie de milagre, porque assumir a culpa é difícil demais. Mas não falo eu e você, que mesmo nos esforçando, somos gotas no mar das indústrias e da pecuária. Postamos acalorados revoltas com queimadas, mortes de animais, devastação, mas somos incapazes de fazer o mesmo ao exigir medidas significativas aos nossos governantes. Esquecemos disso no mês seguinte ou se Anitta lançar uma música nova.

Coniventes, de um modo ou de outro e um “cometa”se aproxima de nós.

Não Olhe Pra Cima deveria ser um filme obrigatório, o sarcasmo e a leveza cômica com a qual carrega o pedido de ajuda da Terra, nos faz refletir que tipo de ser humano estamos sendo e nos tornando e que tipo de sociedade iremos formar.

Beijos de Fogo.

Trailer Oficial Netflix

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *