Bestiário Ioverlar: Kralif

Bestiário Ioverlar: Kralif

Escrevo essas linhas com o medo beirando a insanidade. Se fosse possível aprisionar a emoção experimentada ao me deparar com uma criatura como a que vi nas areias entre Phóllen e Spenyn, poderia resumi-la a embasbacar, sendo generoso.

Assisti muitas coisas em Ioverlar, das mais sofridas às mais doces, nenhuma delas se comparou ao que presenciei no Sul. Ainda estremeço ao lembrar, cada som, cada sibilar da arma encontrando arma, o clássico tilintar do metal empunhado por guerreiros que lutam além da sobrevivência; por seu povo, por seu líder, pelos ideais tão intensos em seus corações. Qualquer homem guiado por tamanha determinação é capaz de qualquer coisa. Aliás, qualquer homem ou mulher.

Antes que orly se deite no horizonte e a minha posição não seja mais tão segura, preciso registrar nessas páginas o que vi.

Criaturas de Carapaças

O nome kralife significa, na língua sulista, aquele protegido por forte armadura. São criaturas lendárias, presentes na balada Sob Esse Solo Viverei. Muitas variações sobre a história de uma fazendeira que pediu clemência aos deuses e foi tratada com indiferença ganharam os ouvidos do povo. Porém, a verdade por trás da canção só pode ser extraída de uma pessoa: a mulher que desafiou a matriarca. Duvido muito que ela tenha tempo para minhas curiosidades ou de qualquer outro como eu.

Haverá um momento propício para elucidar esse mistério. Por enquanto, escrevo aqui o que meus olhos e ouvidos captaram.

A proteção da armadura dos kralifes é conferida por grossas placas de escamas endurecidas, que se acomodam sobre seu dorso como se forjadas pelos ferreiros lendários da Cordilheira dos Dragões.

São criaturas quadrupedes, queliceradas e venenosas. Possuem cauda e, provavelmente, uma reprodução sexuada, mas realizada apenas pela rainha, o que faz de todos filhos da mesma fêmea.

Garras curvas e de ponta quadrada servem tanto para espalhar a areia ao se camuflarem, quanto para segurar suas presas durante a alimentação. São criaturas estrategistas, que atacam de forma organizada e em movimento de exército. Incrivelmente inteligentes, aprendem por observação, sendo capaz de identificar padrões visuais tanto das suas vítimas e do ambiente o qual fazem morada.

Cauda alongada terminada em ferrão, os kralifes possuem glândulas de veneno multiductal, capazes de produzirem a dose certa para cada tamanho de presa. Eles controlam a inoculação do veneno, que serve, também, nos combates de hierarquia na cadeia do ninho.

Queliceras de fechamento em pinça, usadas para segurar a vítima antes da inoculação do veneno e, mantê-la próxima a boca ao se alimentar. Usadas, também, para comunicação, o tipo e intensidade do batuque que fazem com elas configura uma linguagem.

Ágeis e agressivos, os kralifes espalham-se em busca de alimento, principalmente, para sua rainha. São onívoros por natureza, se adaptando bem com o recurso disponível, mas preferem o consumo de vegetais, principalmente os tubérculos. Territorialistas, costumam ocupar uma área de 20 quilômetros, incluindo seu território de caça e os túneis de seu ninho.

Hierarquia e Inteligência

Possuem uma divisão complexa de tarefas dentro do ninho distribuídas da seguinte maneira:

Rainha: Maior que os demais, responsável pela manutenção em número do ninho. Gastam grande energia reproduzindo, pouco saindo de seus ninhos.

Reprodutores: machos maiores e que permanecem ao redor da rainha, disputando por cópula e a protegendo de possíveis inimigos (tais quais podem ser outras fêmeas que tentem matá-la para substituí-la).

Cuidadores: primeira linhagem de kralifes, destinados a alimentação e cuidado dos filhotes. Um grupo composto de machos e fêmeas, que possuem carapaças mais macias, queliceras e garras mais curtas e o cheiro característico da rainha, sendo os únicos com permissão para se aproximarem dela.

Alimentadores: segunda linhagem de kralifes, responsáveis pela transformação dos recursos em pasta de alimentação. A depender de como essa pasta é preparada, definem o cargo que será ocupado pelos filhotes. Esses possuem uma franja de vibrícias sensoriais sob as queliceras, que aumentam a sensibilidade aos odores ao redor.

Defensores: terceira linhagem de kralifes, os mais robustos e de carapaça mais grossa, destinados a protegerem o perímetro do ninho contra invasores. Jamais adormecem e possuem muita resistência a dor.

Soldados e batedores: quarta linhagem de kralifes, mais magros e ágeis, com garras maiores e capacidade de observação elevada. Seus olhos possuem mais células receptores de luz que os demais, dando-lhes uma visão mais acurada, capaz de distinguir três dimensões com clareza. São frenéticos e silenciosos, com grande habilidade para camuflagem. Captam o ambiente ao redor, gravando os principais locais de caça, de água e de encontro com possíveis inimigos.

A forma como cada kralife ocupa sua categoria não é bem descrita ou elucidada. Os que tentaram se aproximar do ninho não sobreviveram para contar história.

Sabe-se que possuem grande capacidade de comunicação na qual repousa o cerne de todo o ninho.

Os Mitos e Lendas

Não existem relatos dessas criaturas datados antes de 1003 antes da Era dos Dragões, quando a maioria dos seres mitológicos foram reunidos na coletânea de Darvirner de Whispers. A lenda sobre a fazendeira data de 603 Depois da Era dos Dragões, considerando o calendário atual. Segundo os registros spenienses, a primeira estrofe data de 708 Depois da Era dos Dragões, antes de Baleóry, a Primeira Skarten, nascer. O que me fez entender que essa é uma história de um povo mais antigo que a linhagem dos Senhores das Serpentes.

A Batalha da Fronteira, como está sendo batizada a danação na linha de divisão entre Phóllen e Spenyn, configura o berço do renascimento dessas criaturas. Hoje, portanto, estamos em 943 Depois da Era dos Dragões, data que ficará registrada quando os kralifes andaram pelos territórios povoados mais uma vez.

Ainda há muito do deserto que quero explorar, as falésias de Phóllen, os Precipícios do Deliro, a Floresta da Miragem e as Falésias do Alto Voo. São nomes antigos, que não condizem com a geografia atual de Ioverlar, mas fizeram parte da nossa história.

As viagens para elucidar tais lacunas continuam. Mas, antes, quero deixar o rascunho de como meus olhos ainda se lembram de um kralife.

Bestiário Ioverlar: Kralif
Bestiário Ioverlar: Kralif (Imagem Representativa Retirada do Pinterest, autor desconhecido)

Onde Podem Encontrar os Kralifes?

Viva uma aventura com um Kralife acessando o conto da Amazon A Serpente de Bronze.

SINOPSE:

As cornetas de Spenyn anunciaram, ao alvorecer, o início da nova batalha. Criaturas tão antigas a ponto de virarem lendas, retornaram trazendo desordem e caos em um prenúncio de tempos de guerra. O que renasceu nas areias desérticas de Phóllen trouxe o medo, reviveu horrores e anunciou o começo da nova Era. Bannery Skarten, herdeira do trono das serpentes, vê o exército de seu pai se esvair em sangue e dor ao fazerem frente ao novo inimigo. Com a cidade de Spenyn ameaçada e a única solução para a ameaça recusada pelo conselho, Bannery precisará enfrentar os velhos generais e seu pai para provar que o campo de batalha é o seu lugar.

Que meus inimigos sintam a dor da minha picada“.

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