Balada Sob Esse Solo Viverei

Balada Sob Esse Solo Viverei

O solo ressecado clamava por água como um apaixonado clama pelo seu amor. Ioverlar estava mergulhada nos tempos da Ira de Orty, quando fónly durou longos dez anos, sem um pingo d’água cair em qualquer parte do continente.

Cidades alagadas viram o fundo dos rios expostos, peixes encolhidos no que sobrara das poças e os animais morrendo aos montes, secando tal qual as folhas da mata.

O verde se foi, restando o tenebroso, cruel e mortal bege da seca. Nas liras e na prosa a dor tinge-se de cinza em uma representação do desespero, mas o verdadeiro sofrimento se encontra em tons neutros de laranja esbranquiçado, ressecado, ressentido, infértil, improdutivo. O tom desanimador e hostil do solo bege rachado.

Foi assim que a senhora Ályar descreveu em suas canções depressivas.

Ályar cantava sobre a dor mais íntima que se podia existir: a fome. Corações partidos se esquecem do ardor, a saudade também é passageira, perde-se bens, posições, heranças, pessoas, nenhum dessas ausências consegue se equiparar com o estômago vazio.

Oito filhos, dois para cada estação, seu ventre fértil em nascimentos duplos eram uma hipocrisia, um contraste para com sua horta ressecada, murcha, morta, esquecida pelos deuses.

Deuses…

Ályar rezava, pedia clemência, mas não fora ouvida.

Criança por criança, cada qual em sua angústia crescente, pereceu de fome e sede, sonhando com dias de fartura. A fazendeira se quer conseguia chorar, suas lágrimas secaram tal qual o chão de sua horta.

O marido se fora antes, muito antes de ver qualquer cria partir. Ele jamais permanecia mais tempo que meia estação, voltando a peregrinar em busca de comida e, como dizia, uma vida digna.

Ályar manteve-se firme, mesmo ao suspiro das últimas crianças. Prometeu para seu amado e para cada filho que tornaria seu lar um paraíso. Por isso rezou, ofereceu seu ventre fértil á deusa, largada no meio de uma tempestade de areia, Ályar gritou por Kala; pela mãe, pela guerreira, pela velha e pela menina que compunha a deusa.

Com uma faca, consagrou seu pedido com sangue. O sangue de seu útero, derramado no solo como demonstração da fé.

Ályar berrou, berrou mais alto que a tempestade de areia, tornando-se furacão quando nada mais restava.

Então, os céus trovejaram e as lágrimas de dor de Ályar viraram chuva.

O verde brotou até onde não se podia imaginar existir, ele pintou e tingiu de alegria os corações mais frios de Ioverlar. A beleza, a fartura, a comida.

Ályar voltou para casa em um caminho de mandacarus floridos, seriguelas em broto e o vislumbre de um pasto se estendendo pelo que antes era um deserto.

Com lágrimas constantes correu para sua horta, tomada por uma emoção a qual não lhe cabia. Conseguiria cumprir a promessa feita no leito de morte de seus filhos, com comida farta para alimentar quem precisasse. Entretanto, as batatas, macaxeira, inhame e milho plantado foram recolhidos com brutalidade.

Cascos de camelos, vestígios de roupas, duas botas de soldados, a marca de Spenyn em um brasão esquecido no canto da varanda. Roubada, extorquida, esquecida outra vez.

Kala fora injusta, fora cruel. Restara-lhes nada além de si, de uma vida vazia e desprezível.

A determinação move nações, boa parte delas se tornam impérios grandiosos. Mas não há força mais perigosa do que o ódio.

Ályar prometeu, por nove vezes, que daquela terra restaria dor, que dela nasceria o flagelo que consumiria o mundo.

Faminta, se alimentaria do que estivesse ao alcance de suas garras. Pariria um exército, seria, sozinha, um mal inabalável.

Caminharia pela areia com seus milhares de olhos esfomeados, até encontrar Kala. Até encontrar a deusa cuja palavra pouco vale e a misericórdia não existe.

Uma promessa vale mais do que o próprio peso em ouro.

Uma maldição há de valer além do que se pode contar em moedas.

Onde Encontrar a História Recitada na Balada?

A lenda que originou a balada Sob Esse Solo Viverei faz parte da trama da novela A Serpente de Bronze, publicada em ebook na Amazon.

A Serpente de Bronze conta a história de uma jovem mulher que deseja provar ao seu país que o campo de batalha é o seu lugar, não os salões protegidos atrás dos muros de um palácio. Bannery Skarten luta contra o preconceito machista velado em sua cidade, Spenyn, o qual exclui mulheres de exercer atividades bélicas, seja na linha de frente ou no planejamento de guerra. Spenyn é assolada por criaturas lendárias, os Kralifs, poderosas e o mortais, que vem destruindo o exército, as fazendas e quem estiver em seu caminho. Banny quer defender seu povo, mostrar que pode ser mais do que a filha do líder. Em suas veias corre o sangue das serpentes do deserto.

SINOPSE:

As cornetas de Spenyn anunciaram, ao alvorecer, o início da nova batalha. Criaturas tão antigas a ponto de virarem lendas, retornaram trazendo desordem e caos em um prenúncio de tempos de guerra. O que renasceu nas areias desérticas de Phóllen trouxe o medo, reviveu horrores e anunciou o começo da nova Era. Bannery Skarten, herdeira do trono das serpentes, vê o exército de seu pai se esvair em sangue e dor ao fazerem frente ao novo inimigo. Com a cidade de Spenyn ameaçada e a única solução para a ameaça recusada pelo conselho, Bannery precisará enfrentar os velhos generais e seu pai para provar que o campo de batalha é o seu lugar.

Que meus inimigos sintam a dor da minha picada“.

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