A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes

A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes

Poderia descrever esse lugar como a ponta colorida no meio do deserto, a floresta que resistiu ao árido, ao sopro de verde em meio a devastação rochosa que arrodeia os cantos do Sul, mas gosto de me referir a cidade onde o ouro brota até da mais tenra caverna como o derradeiro berço das serpentes guerreiras.

Spenyn…

Um nome com fonema sibilante, significado rastejante. Existe uma frase muito conhecida em Ioverlar: “uma vez em Spenyn, nenhum outro lugar consegue ser mais interessante”. Experimentei isso na pele e recomendo – ou não – que também se sirva desse mesmo prazer.

Situada a margem leste do Sul de Ioverlar, Spenyn é a cidade onde as pedras preciosas resolveram se concentrar. Pela força dos deuses ou não, o ouro mina dos afluentes dos rios, vindos das grandes montanhas que caracterizam a Cordilheira do Dragão. Lendas diversas relatam sobre rituais de adoração, criaturas mágicas que repousaram em seu solo e até sobre existirem dragões produtores de gemas preciosas, feitos com suas escamas, fogo mágico e o que mais sua imaginação fluir.

Mas o fato é que esse lugar possuí benções que o restante de Ioverlar desconhece ou teme demais para reconhecer.

Rodeada por uma floresta de copas altas e galhos magros, Spenyn repousa no centro verde das palmeiras. Baobás imensos se aglomeram em troncos grávidos por todos os lados, parecem desejar mostrar seus ventres avantajados, orgulhosos de si. Ali tudo cresceu pronto para atacar, arbustos espinhentos, plantas com folhas que queimam a pele, insetos peçonhentos com ferrões que se não te matarem pelo veneno vão fazê-lo pela dor.

Flores em cores impensadas, a maior flor do mundo brota de sua terra, imensa, com o centro rodeado por pequenos grãos de pólen amarelados, destacam-se entre o rosa escuro das pétalas. Gostaria de poder capturar um pedaço de cada ser desse lugar e montar uma coleção speniense para admirar diariamente. Até tentei, mas é impossível manter a concentração em outra coisa além do embasbacar constante.

A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes
A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes (Imagem Ilustrativa)

As ruas são marcadas pelo barro batido e as calçadas de pedra. As casas não variam em cores além dos tons de bege ou marrom, parecem ser feitas de argila, mas são tão resistentes quanto os muros de pedra das moradias de Yaga, no Norte de Ioverlar. Janelas de madeira, tetos retos nos quais repousam lajes amplas, onde tapetes e almofadas são estendidos e, no final do dia, as famílias desfrutam de um café recém coado, enquanto escutam o batuque dos tambores tocados pelo patriarca.

Falei que Spenyn é pontuada por suas cores, lembre-se disso. Contrastando o bege, as tendas em tecidos coloridos, a maioria de tons fortes e quentes, se estende nos fundos e nas frentes das casas, feito cabanas protegendo do sol. No mercado, são as cores que distinguem as barracas, ainda me perco em qual representa o que, mas gravei que as verdes simbolizam alimento, deglutição, se alimentar; se fartar, se assim preferir e como acho mais adequado me referir, porque a comida servida possui toque dos deuses, mas disso falarei em outro momento.

A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes
A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes (Imagem do Pinterest)

As fazendas ficam longe da cidade, algumas poucas, essas contendo hospedagem junto, propondo uma estadia terapêutica, isolando seus hospedes da vida agitada e tratando das feridas da alma, são as mais próximas. Duas delas muito famosas, O Manto Sereno e a Recanto Pleno, acredito que da mesma família de curandeiras.

Nelas há uma agenda de rituais programada, meditação, jejuns, banhos em água gelada com essências curativas, massagens e acupuntura, alongamento, leitura dos grandes ensinamentos de Kanum, a dança da cura de Kala e mais uma vasta quantidade de atribuições. Em outro momento vou me dar ao prazer de relaxar nesses lugares – quando o ouro me for mais farto.

Os produtores da monocultura se espalham pelas fronteiras de Phóllen, a cidade aliada a Spenyn e que vivem em uma simbiose de aliança por tantos anos, que por vezes os territórios do vizinho são considerados spenienses. Mas a cidade das falésias é independente.

Foi na principal fronteira que a Batalha dos Karlifes aconteceu. Dizem que as criaturas da areia consumiram quase tudo, destruíram plantações, vilas, outros animais. Pareciam sugadores, como os grandes vermes da areia das lendas. Os relatos variam quanto a como eram essas criaturas, tinham chifres, voavam, rastejavam, sibilavam obscenidades, iludiam quem encarasse seus olhos e transformava pessoas em escravos sexuais. A sorte de imaginação popular.

Porém, dentre tantas falações, uma era única, imutável e repetida como um mantra da sorte: a Serpente de Bronze.

Derrotou os Karlifes com chicotes de aço, com o poder das serpentes, com o sangue fervoroso dos Skarten. Bannery seu nome. Bannery Skarten, a filha de Artherys, a mulher que virou lenda, marcou a história e correu os quatro cantos de Ioverlar em notícia. Ouvi sobre ela pela primeira vez em Whispers, o extremo oposto de Spenyn, tão longe e escondido que parecia brincadeira um relato daqueles ecoar pelos flamboyants. Mas sei que fora esse o motivo que me levou até Spenyn, arrastando-me como ferro ao encontrar magnetita.

E ouvi sobre a Serpente de Bronze, em uma verdadeira apresentação artística, o modo como os spenienses contam suas lendas, com música e dança. Continuei fascinado, talvez mais do que antes.

Seria muita fantasia desejar conhecê-la?

A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes
A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes (Imagem Pinterest)

Carroças puxadas por búfalos é comum pelas ruas mais largas, chamadas de cargueiras. Cavalos estreitos e musculosos, estreitos, por assim dizer, são a maior escolha dos que podem pagar por um. Os kranascer de Brókvo configuram outro patamar, esses cavalos de guerra, ferozes como o significado de seu nome, custam tanto quanto comprar uma casa. Em Spenyn, apenas os Skarten cavalgam nesses animais. Tive o prazer de assistir um deles passar em um passeio de rua. Foi muito rápido, mas consegui apreciar a beleza do animal – e do exército.

Falando em forças militares, por aqui a armadura é a resistência. Placas de metal leve, couro reforçado – a maioria escondendo placas finas de um aço raro, o huyst, de origem duvidosa – e a lança em mãos. Lanceiros de Spenyn, o exército da lança envenenada. O que lhes falta em proteção robusta é acrescentado nas misturas mortais que banham as lâminas.

Adagas, lanças, flechas, espadas e punhais são forjados para terem um ducto, onde o veneno se acumula, escondido dos olhos do oponente. Um beliscão, um simples arranhão e sua vida se esvai dentro de dez minutos ou menos.

Não é à toa que o lema da família Skarten é “que meus inimigos sintam a dor da minha picada”. Skarten é a junção Skares e Tarneyren, aqueles que rastejam/sibilam pelo deserto, em tradução livre. Já ouvi que o significado abrange para aquele que se defende com ferrões. Acredito que só um speniense para esclarecer, a língua mãe de Spenyn é muito complexa e cheia de gestos ao ser falada, os quais também configuram dialeto.

Em suma, não seja inimigo de Spenyn em uma guerra.

A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes
A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes (imagem pinterest)

Gostaria de discorrer sobre o palácio, a música, as danças e os festivais, mas demorarei em demasia e estou faminto. Deixarei esses detalhes para um outro momento.

Espero que meus registros sejam guardados, caminho por Ioverlar em busca de tentar eternizar sua beleza nesses pergaminhos.

Jamais conseguirei tamanha proeza, entretanto, ao menos conseguirei instigar a imaginação de quem me lê.

Se por acaso puder, visite Spenyn. Só cuidado para não se apaixonar por um speniense, eles são amantes cruéis e vão te aprisionar nesse lugar – junto com toda a magnitude da cidade.

Até mais, caro curioso.

Onde Você Encontra Spenyn?

Spenyn é a cidade palco do conto A Serpente de Bronze, que está disponível em ebook na amazon. Parte de um futuro livro de fantasia, que mostra uma das maiores batalhas vividas no sul de Ioverlar.

Conta a história de Bannery Skarten, a herdeira do trono de Spenyn, que vê seu povo cair em ruinas por uma ameaça lendária, uma criatura que até então só existiam nos livros e das baladas cantadas nos bares. Afastada de exercer o papel de líder, pelo qual treinou a vida inteira, apenas por ser mulher, Banny decide tomar uma atitude imprudente, mas que talvez salve seu povo.

Sinopse:

As cornetas de Spenyn anunciaram, ao alvorecer, o início da nova batalha. Criaturas tão antigas a ponto de virarem lendas, retornaram trazendo desordem e caos em um prenúncio de tempos de guerra. O que renasceu nas areias desérticas de Phóllen trouxe o medo, reviveu horrores e anunciou o começo da nova Era. Seria Bannery, a herdeira dos Skarten, capaz de livrar seu povo dessa ameaça?

Adquira o seu aqui.

2 comentários em “A Grande Spenyn, Cidade das Serpentes”

  1. F. H. Hingst

    Post maravilloso! Já tive o imenso prazer de conhecer Spenyn e a querida Bannery Skarten! Desejo todo o sucesso e ansioso para os próximos livros!!! 😍

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